segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

No fundo da gaveta - "Lá fora..."


          Primeiro a luz.
          Depois, o som.
          Som que explode ao longe, fazendo o velho saltar em sua macia cadeira perto do fogo.  Ele solta o livro que estivera lendo e aproxima-se da grande janela, as pesadas cortinas vermelhas dançando ao sabor do vento, feito língua de répteis famintos. Ele olha pela janela, sentindo os primeiros pingos de chuva em sua pele. Ao fechá-la, finda-se o barulho e o balançar das cortinas. Os répteis estão mortos.
          Através do vidro ele pode ver a chuva se aproximando sobre a velha floresta, com seus pinheiros sacolejando como o mar, e aos poucos se aproximar de sua janela, os pingos pipocando aos poucos contra o vidro e escorrendo lentamente. Ele fecha as cortinas com um movimento lento, mas algo impede sua mão. Seria um pressentimento? Alguma paranóia? O que significa esse calafrio na espinha? Há algo estranho no balançar dos pinheiros, longe na noite escura banhada pela chuva... ou é só maluquice de um velho? Um roçar em sua perna causa um sobressalto. Ele olha para baixo e encontra seu velho companheiro. O gato. Tibles. Dá de ombros e fecha a cortina de vez. Não sem antes dar uma última espiada pela cortina.
          Ele volta para perto da lareira. O fogo morre aos poucos. Ele seleciona um pedaço aleatório de lenha e arremessa-o nas brasas, que chiam e se espalham pelo ar antes que o fogo ganhe uma nova sobrevida.
          O gato mia. O velho fecha o livro que antes estivera lendo, apanha seu lampião e desce as escadas o mais rápido que seus músculos cansados permitem. Tibles passa por ele, quase derrubando-o das escadas, e espera no patamar lá em baixo.
          – Calma, meu caro! Já estou indo.
          Após descer as escadas, ele se dirige para a cozinha. Passando pela janela da sala, algo chama sua atenção. Uma sombra incomum do lado de fora. Há algo de estranho nesta noite, nesta tempestade. Tibles está parado no meio da sala. Fitando a janela. O velho segue em direção à porta, e se certifica de que está fechada. A sombra permanece ali. Talvez seja só uma árvore. Uma árvore alta no meio de árvores altas. Faz muito sentido afinal de contas. É só a noite te pregando peças. Somente seus olhos tentando entender as coisas. Mesmo assim, ele tranca a porta e a janela.
          Tibles permanece sentado no meio da sala até que o velho já tenha alcançado a soleira da cozinha, então, com um ronronar, segue-o até lá e pára ao lado de sua vasilha. O homem derrama leite aos poucos e o gato começa a beber, lentamente.
          Ele se senta ao balcão e decide que também precisa de um lanche antes de ir dormir. Passa então a montar vagarosamente um sanduíche e a preparar um café. Já está na segunda mordida e no meio do primeiro gole do café quando ouve um estalar vindo da sala. Ele pára no meio do gole, levando a caneca vagarosamente ao tampo do balcão. Tibles ergue as orelhas e espicha a calda. Atento. Ele se levanta de vagar e segue em direção à sala, com seu velho lampião na mão que treme. Ao chegar à sala, nada. “Devo estar ficando louco”... ao se virar para voltar ao seu lanche, Tibles começa a rosnar. De repente algo. Algo em sua visão periférica enquanto ele observar o gato. Uma sombra. Rápido. Somente uma fração de segundo e se foi. Mas é o suficiente. Tibles sai correndo e sobe as escadas. Ele decide que é melhor acompanhar o gato andar acima. Suas mãos tremem, seus ouvidos zunem. Ele sobe o mais rápido que pode. Um frio pavor começa a se apoderar de seu corpo, algo que ele nunca sentiu na vida, algo do qual nunca ouvira falar. Algo lá fora.
          Ele se tranca no quarto e se encolhe num canto feito uma criança assustada. A chuva tamborila forte nas janelas. O fogo na lareira morre. Tibles está encolhido debaixo da cama e ele pode ouvir o ranger dos próprios dentes. O relógio na sala soa lentamente o seu pêndulo. Tic... toc... tic... toc... mais lento que o seu batimento cardíaco. Ele treme. Frio. Um frio sobrenatural. Puxa as cobertas da cama, e se enrola o melhor que pode, mas isso não ajuda.
          Ele sente mais do que ouve... a porta da sala... abrindo lentamente... algo rastejando para dentro... a noite entrando em seu abrigo. O fogo em sua lareira, cada vez mais fraco. Silêncio. Somente o barulho de seu coração acelerado. O relógio não soa mais... em vez disso, algo pior... um som suave... lento. Cada vez mais próximo. Subindo as escadas. Pára. Tibles rosna sob a cama. Está ali. Do outro lado da porta. Aquilo. Vindo de fora. Ele não tem mais controle de seu corpo, o frio é tão profundo que ele treme convulsivamente.
          O trinco na porta. Há algo errado com ele. Ele gira suavemente. De repente um estalar. Ele geme silenciosamente. O ranger da porta ao se abrir acompanha o gelo em sua espinha.
          A porta se abre vagarosamente. Ele está paralisado. Não pode se mover, não pode fugir, não pode gritar, até mesmo isso é reprimido. Por Aquilo. Ali. Na porta. A Noite Que Entra. O Vindo de Fora. Ele O vê. E não compreende. Aquela escuridão que entra vagarosamente, apagando sua luz. Não. Aquilo não é possível. Um temor ancestral e frio toma conta de seu corpo. Paralisante. E então ele o vê como ele realmente é.
Inconcebível.
Inimaginável.
O derradeiro impulso de seu cérebro é finalmente processado.
Ele grita.
Mas o som só pode ter vindo do fundo de sua alma imortal.
Pois seu cérebro desistira de entender.