sexta-feira, 28 de março de 2014

"Oceano"

Podes sentir as ondas quebrando ao longe? Podes ouvir o rugido do mar profundo? Sua canção fantasmagórica soando na noite que se cerra sobre nós? Feche seus olhos, preste atenção... há algo que canta para ti. Uma voz doce e quente, como os dias agradáveis e sonolentos de verão, onde você dorme preguiçosamente no meio do dia. Mas, espere!, não sorria assim... não percebes?, há também uma sensação estranha que acompanha algumas notas da melodia; algo que cai como gotas de chuva em um amanhecer de inverno, enregelando seus ossos e te fazendo desejar estar em seu lar novamente, sem que você se lembre do motivo que o tirou de lá. Ouça com atenção... 
Sim, o que você ouve é o coração do oceano, o espírito do mar, que seduziu e enlouqueceu marinheiros sem conta, levando-os a fins cruéis ou sutis em histórias há muito perdidas ou esquecidas. 
Há algo ali, meu amigo. Escute o que lhe diz este velho. Há muito mais nas coisas do que você pode imaginar e, quando falamos do Mar... bem... com certeza há nele muito mais do que poderíamos desejar... 
Sabe?, quando eu era jovem, jovem assim como sois agora - ora, não me olhe com esta cara! - meu pai contava-me um conto, uma história que o Tempo lhe contou quando este ainda era jovem... um conto sobre o Mar. 
Houve uma garota. Sim, sempre há, não é mesmo? Uma garota bonita e meiga? Sim, e o que seria mais provável em histórias deste tipo? Exato! Mas, bem, esta não é uma história de amor comum. Não como você pode esperar, pelo menos. Ela começa - ou termina - em uma noite exatamente como esta, em uma praia muito parecida com esta, há muito, muito tempo. 
O céu está chumbo e, embora seja lua-cheia, o único sinal de que existe uma lua é uma leve claridade em meio às nuvens escuras. O mar está calmo, sem ondas, só o silêncio de sua canção preenche a noite. É outono, e um vento muito frio varre a costa, no entanto, ela não sente frio; está parada em pé na areia cinza, somente com seu longo vestido, branco feito as estrelas. Ela contempla o oceano com seus grandes olhos, translúcidos de tão claros, como a água do rio mais límpido. Seu tom acinzentado parece capturar o espírito da noite. O vento brinca com seus cabelos, negros como a noite, como se com ela flertasse timidamente. Ela ouve o rugido do Mar ao longe, como se cantasse para ela uma canção há muito esquecida. Há algo de familiar e acolhedor em sua melodia e ela se move lentamente em direção ao mar, quase que inconscientemente. Seus pés descalços abandonando suaves pegadas na areia fina. 
Lentamente ele segue em frente. O olhar pousado no horizonte e, quando se dá conta de si, a água já banha os seus pés. Não está fria como você poderia imaginar que estivesse em uma noite gélida dessas, não para aquela garota pelo menos. Não, para ela a água do mar lhe chega morna e sonolenta. Ela olha para o vasto oceano à sua frente, como se lhe dirigisse uma pergunta, ou esperasse uma resposta. Ela o acha belo. Sempre achara. A água morna parece um convite, como alguém que lhe estende a mão para se aproximar do fogo e se livrar do frio. Decide seguir mais um pouco, que mal há nisso? Só mais um pouco. 
A água cobre seus tornozelos, molhando a barra de seu longo vestido. Ela segue. Passa a ponta dos dedos pela superfície da água. Seu vestido, que antes flutuava, começa a afundar devido ao peso. Mas não é um peso tão grande, não... Não o suficiente para ela não conseguir mais andar, nada que a faça parar. 
Em frente ela vai. Seus longos cabelos deslizando sobre as águas. Aos poucos ela afunda, sem nadar. Apenas segue. Apenas se entrega, afinal, não há o que temer. O Oceano é tão belo, e parece recebê-la com tanta ternura; ela a envolve e a protege, cantando em seus ouvidos feito um pai que nina o filho nos braços. A sensação é de estar em casa, de voltar ao lar, de onde nunca deveria ter saído. 
Ninguém sabe dizer quem foi ela ao certo. Alguns dizem que ela perdeu seu amor para o mar, e que este um dia voltou para buscá-la, outros, que ela na verdade rendeu seu amor ao Oceano e se entregou a ele de corpo e alma; ou ainda que sempre pertenceu ao Mar de alguma forma, e sempre desejou voltar para casa. 
Você vai me perguntar se ela se matou, se tinha uma vida triste e simplesmente decidiu ir embora. Podes pensar assim se quiser: as pessoas fazem isso, de fato... mas se perguntar a este velho que vos fala ele vai te responder que não. 
Não, ela não se matou. E arrisco dizer que nem ao menos morreu. O Mundo é um lugar muito estranho, sabe? Muito mais estranho do que gostaríamos de aceitar, e muito mais estranho do que as pessoas costumam pensar. Eu já vi muita coisa deste Mundo, sabe? Ela vive lá... de alguma forma... no meio das ondas... guiando marinheiros para os seus lares ou fazendo-os enlouquecer de amor. Ela está lá, cantando sua canção... 
Sabe?, se você sentar quieto na beira do Mar em uma noite fria de Outono como esta, você pode ouvir sua voz cantando para ti uma bela canção de ninar... 
...ou uma assustadora canção de amor.  
Você pode sentir a mão dela em seus cabelos, acariciando sua pele? Preste atenção... você a ouve? Você sente o arrepio na espinha que a voz dela lhe causa?, ou o frio no peito que o seu toque lhe traz?  
O que? ...eu? 
Ah, sim... 
Sim, pelos deuses... 
Pelos deuses do Céu e do Mar... 
...eu a ouço. E se... 
...se os ventos vierem a me trair, 
um dia hei de vê-la.

quarta-feira, 12 de março de 2014

"Lá fora"

            Primeiro a luz.
Depois, o som.
Som que explode ao longe, fazendo o velho saltar em sua macia cadeira perto do fogo.  Ele solta o livro que estivera lendo e aproxima-se da grande janela, as pesadas cortinas vermelhas dançando ao sabor do vento, feito língua de répteis famintos. Ele olha pela janela, sentindo os primeiros pingos de chuva em sua pele. Ao fechá-la, finda-se o barulho e o balançar das cortinas. Os répteis estão mortos.
Através do vidro ele pode ver a chuva se aproximando sobre a velha floresta, com seus pinheiros sacolejando como o mar, e aos poucos se aproximar de sua janela, os pingos pipocando aos poucos contra o vidro e escorrendo lentamente. Ele fecha as cortinas com um movimento lento, mas algo impede sua mão. Seria um pressentimento? Alguma paranoia? O que significa esse calafrio na espinha? Há algo estranho no balançar dos pinheiros, longe na noite escura banhada pela chuva... ou é só maluquice de um velho? Um roçar em sua perna causa um sobressalto. Ele olha para baixo e encontra seu velho companheiro. O gato. Tibles. Dá de ombros e fecha a cortina de vez. Não sem antes dar uma última espiada pela cortina.
Ele volta para perto da lareira. O fogo morre aos poucos. Ele seleciona um pedaço aleatório de lenha e arremessa-o nas brasas, que chiam e se espalham pelo ar antes que o fogo ganhe uma nova sobrevida.
O gato mia. O velho fecha o livro que antes estivera lendo, apanha seu lampião e desce as escadas o mais rápido que seus músculos cansados permitem. Tibles passa por ele, quase derrubando-o das escadas, e espera no patamar lá em baixo.
– Calma, meu caro! Já estou indo.
Após descer as escadas, ele se dirige para a cozinha. Passando pela janela da sala, algo chama sua atenção. Uma sombra incomum do lado de fora. Há algo de estranho nesta noite, nesta tempestade. Tibles está parado no meio da sala. Fitando a janela. O velho segue em direção à porta, e se certifica de que está fechada. A sombra permanece ali. Talvez seja só uma árvore. Uma árvore alta no meio de árvores altas. Faz muito sentido afinal de contas. É só a noite te pregando peças. Somente seus olhos tentando entender as coisas. Mesmo assim, ele tranca a porta e a janela.
Tibles permanece sentado no meio da sala até que o velho já tenha alcançado a soleira da cozinha, então, com um ronronar, segue-o até lá e pára ao lado de sua vasilha. O homem derrama leite aos poucos e o gato começa a beber, lentamente.
Ele se senta ao balcão e decide que também precisa de um lanche antes de ir dormir. Passa então a montar vagarosamente um sanduíche e a preparar um café. Já está na segunda mordida e no meio do primeiro gole do café quando ouve um estalar vindo da sala. Ele pára no meio do gole, levando a caneca vagarosamente ao tampo do balcão. Tibles ergue as orelhas e espicha a calda. Atento. Ele se levanta de vagar e segue em direção à sala, com seu velho lampião na mão que treme. Ao chegar à sala, nada. “Devo estar ficando louco”... ao se virar para voltar ao seu lanche, Tibles começa a rosnar. De repente algo. Algo em sua visão periférica enquanto ele observar o gato. Uma sombra. Rápido. Somente uma fração de segundo e se foi. Mas é o suficiente. Tibles sai correndo e sobe as escadas. Ele decide que é melhor acompanhar o gato andar acima. Suas mãos tremem, seus ouvidos zunem. Ele sobe o mais rápido que pode. Um frio pavor começa a se apoderar de seu corpo, algo que ele nunca sentiu na vida, algo do qual nunca ouvira falar. Algo lá fora.
Ele se tranca no quarto e se encolhe num canto feito uma criança assustada. A chuva tamborila forte nas janelas. O fogo na lareira morre. Tibles está encolhido debaixo da cama e ele pode ouvir o ranger dos próprios dentes. O relógio na sala soa lentamente o seu pêndulo. Tic... toc... tic... toc... mais lento que o seu batimento cardíaco. Ele treme. Frio. Um frio sobrenatural. Puxa as cobertas da cama, e se enrola o melhor que pode, mas isso não ajuda.
Ele sente mais do que ouve... a porta da sala... abrindo lentamente... algo rastejando para dentro... a noite entrando em seu abrigo. O fogo em sua lareira, cada vez mais fraco. Silêncio. Somente o barulho de seu coração acelerado. O relógio não soa mais... em vez disso, algo pior... um som suave... lento. Cada vez mais próximo. Subindo as escadas. Pára. Tibles rosna sob a cama. Está ali. Do outro lado da porta. Aquilo. Vindo de fora. Ele não tem mais controle de seu corpo, o frio é tão profundo que ele treme convulsivamente.
O trinco na porta. Há algo errado com ele. Ele gira suavemente. De repente um estalar. Ele geme silenciosamente. O ranger da porta ao se abrir acompanha o gelo em sua espinha.
A porta se abre vagarosamente. Ele está paralisado. Não pode se mover, não pode fugir, não pode gritar, até mesmo isso é reprimido. Por Aquilo. Ali. Na porta. A Noite Que Entra. O Vindo de Fora. Ele O vê. E não compreende. Aquela escuridão que entra vagarosamente, apagando sua luz. Não. Aquilo não é possível. Um temor ancestral e frio toma conta de seu corpo. Paralisante. E então ele o vê como ele realmente é.
Inconcebível.
Inimaginável.
O derradeiro impulso de seu cérebro é finalmente processado.
Ele grita.
Mas o som só pode ter vindo do fundo de sua alma imortal.

Pois seu cérebro desistira de entender.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

No projetor - Sherlock

Foi por acaso que eu conheci o célebre morador do número 221B da Baker Street, se é que coisas como o acaso existem. Eu tinha uns 12 anos e estava brincando no carro do meu pai quando encontrei um exemplar de “O Sígno dos Quatro” no porta-luvas. O livro foi esquecido ali pelo meu tio, e quando ele veio buscá-lo eu já havia me apaixonado pelo personagem fantástico que é o Sr. Holmes, pela amizade fiel de John Watson e pelo aspecto quase sobrenatural da Londres do século XIX.
Posso me arriscar a dizer que esta obra influenciou de forma definitiva o meu futuro amor pela leitura, e até mesmo por história, afinal, este período 1890-1920 é um dos meus favoritos. O início do século 20 foi conturbado e abrupto, às vezes se confundindo com o passado, às vezes correndo para o futuro.
Edição que me apresentou
à literatura
Em um período bem curto eu li toda a obra publicada por Sir Arthur Conan Doyle referente ao Sr. Sherlock Holmes, e até hoje obras passadas na Londres de 1890 me atraem e cativam. Ao longo dos anos, fui acompanhando as adaptações cinematográficas ou para TV destes personagens tão queridos: um filme antigo, com Basil Rathbone no papel principal e até mesmo uma adaptação engraçaralha de Jô Soares, com seu “Xangô de Baker Street”, passando por “O Enígma da Pirâmide”, filme de 1985. Mais recentemente fomos apresentados a Robert Downey Jr. e seu Sherlock no que, pra mim, é um bom filme, mas que nada leva do personagem original. Mas nenhum deles chamou tanto minha atenção e me deixou tão besta na frente da TV quanto a série Sherlock, produzida pela British Broadcasting Corporation, a BBC.
Esta série nos apresenta a John H. Watson (Martin Freeman), veterano de guerra que volta a Londres e busca alguém com quem possa dividir o aluguel. Através de um amigo em comum, John é levado a conhecer Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch), que aluga sozinho um flat na Baker Street e está disposto a dividir as contas. John encontra o notável Sherlock em um laboratório onde este faz testes químicos em um microscópio e os dois acertam as coisas para que John se mude em breve. John acaba se envolvendo nos casos de consultoria que Sherlock presta à Scotland Yard e, ao ver a incrível capacidade dedutiva de Holmes decide transcrever suas aventuras junto ao detetive.
Até aí, nada de novo, certo? Certo, muito fiel aos livros, a não ser pelo fato de que a série se passa nos dias atuais.
          Esse aspecto da série me deixou com o pé atrás, e ignorei-a por um tempo, mas quando finalmente dei uma chance à adaptação, me surpreendi com a qualidade e o respeito pelos personagens. É excelente.
Todos os aspectos da personalidade de Sherlock estão presentes. É como se alguém tivesse se perguntado “Como alguém como Sherlock Holmes seria hoje em dia?” e seguido a partir daí. Sherlock é apresentado como alguém que não se importa com os convívios e as amarras sociais, quase beirando a sociopatia, mas esse traço de sua personalidade é bem medido pela sua educação, o que resulta em um humor ácido e sincero, que, além de ser muito justo ao Holmes de Doyle que preza a lógica e a verdade acima de tudo, torna a série muito divertida.
Aliás, em questão de diversão, Sherlock, mesmo se tratando de uma série policial/drama é muito divertida! A relação Sherlock-Watson é uma das melhores coisas desenvolvidas aqui, talvez por causa da escolha de elenco, pois Freeman é um excelente ator, e consegue reagir às situações absurdas em que é colocado de uma maneira sincera, como se tentasse manter a sanidade frente aquilo, como quando Holmes surge todo sujo de sangue e com um arpão na mão, dizendo que estava fazendo experimentos com um porco ou quando John descobre que Sherlock não possui nenhum conhecimento de astronomia, ignorando, inclusive, o fato de a Terra girar em torno do Sol. Ambas as situações descritas nos livros.
John muitas vezes acaba servindo como relações-públicas ou mesmo consciência social para Holmes, devido aos seus hábitos solitários do detetive, mas a amizade dos dois é muito bem desenvolvida, e conseguimos perceber perfeitamente o porquê de duas pessoas tão diferentes serem amigas.
Martin Freeman e Benedict Cumberbatch
como Watson e Sherlock.
Benedict Cumberbatch está sensacional no papel e, tanto fisicamente quanto em sua atuação, consegue nos fazer acreditar que o que Sherlock Holmes faz não é sobrenatural nem forçado, mas que se trata tudo de uma questão de observação, e suas conversas com Watson servem quase como uma lição para o espectador e o mais divertido é que, ao acompanhar os mistérios, nos pegamos tentando descobrir o final, o que eu só consegui fazer em um episódio. Pois mesmo sendo baseadas nos contos originais, as histórias são originais, apesar de prestar uma bela homenagem à obra de Doyle. As tramas são muito bem amarradas, mas tudo o que Sherlock vê nós também vemos. Não há nenhuma informação oculta que só surge no final.
Eu amo o personagem e poderia escrever textos e mais textos dizendo o quanto esta adaptação é boa, mas no fim das contas, o que eu quero dizer é: Assistam! Quer você goste ou não do personagem ou dos livros. É uma das melhores séries da atualidade e com certeza vale a pena! A produção conta com grandes nomes como Steven Moffat, um dos homens por trás do aclamado Dr. Who, além de contar com Cumberbatch, que vem se mostrando um ator excepcional, já tendo atuado de forma brilhante em fitas como “Cavalo de Guerra”, “O espião que sabia de mais”, além de ícones do mundo nerd como “Além da escuridão – Star Trek” e “A Desolação de Smaug”; e Martin Freeman, que nos deu de presente a melhor representação possível de Bilbo Bolseiro nos cinemas.

No momento desta publicação, Sherlock conta com 3 temporadas com três episódios cada, e a quarta já foi confirmada. São poucos episódios, ainda que tenham sua duração média de 90min.
Sherlock Holmes foi um personagem tão crível à época de sua criação por Conan Doyle que as pessoas endereçavam cartas ao 221B - Baker Street com seus mistérios e casos para Holmes e Watson, e esta série da BBC me fez acreditar que este homem poderia existir realmente.

Sherlock Holmes.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

No fundo da gaveta - "Lá fora..."


          Primeiro a luz.
          Depois, o som.
          Som que explode ao longe, fazendo o velho saltar em sua macia cadeira perto do fogo.  Ele solta o livro que estivera lendo e aproxima-se da grande janela, as pesadas cortinas vermelhas dançando ao sabor do vento, feito língua de répteis famintos. Ele olha pela janela, sentindo os primeiros pingos de chuva em sua pele. Ao fechá-la, finda-se o barulho e o balançar das cortinas. Os répteis estão mortos.
          Através do vidro ele pode ver a chuva se aproximando sobre a velha floresta, com seus pinheiros sacolejando como o mar, e aos poucos se aproximar de sua janela, os pingos pipocando aos poucos contra o vidro e escorrendo lentamente. Ele fecha as cortinas com um movimento lento, mas algo impede sua mão. Seria um pressentimento? Alguma paranóia? O que significa esse calafrio na espinha? Há algo estranho no balançar dos pinheiros, longe na noite escura banhada pela chuva... ou é só maluquice de um velho? Um roçar em sua perna causa um sobressalto. Ele olha para baixo e encontra seu velho companheiro. O gato. Tibles. Dá de ombros e fecha a cortina de vez. Não sem antes dar uma última espiada pela cortina.
          Ele volta para perto da lareira. O fogo morre aos poucos. Ele seleciona um pedaço aleatório de lenha e arremessa-o nas brasas, que chiam e se espalham pelo ar antes que o fogo ganhe uma nova sobrevida.
          O gato mia. O velho fecha o livro que antes estivera lendo, apanha seu lampião e desce as escadas o mais rápido que seus músculos cansados permitem. Tibles passa por ele, quase derrubando-o das escadas, e espera no patamar lá em baixo.
          – Calma, meu caro! Já estou indo.
          Após descer as escadas, ele se dirige para a cozinha. Passando pela janela da sala, algo chama sua atenção. Uma sombra incomum do lado de fora. Há algo de estranho nesta noite, nesta tempestade. Tibles está parado no meio da sala. Fitando a janela. O velho segue em direção à porta, e se certifica de que está fechada. A sombra permanece ali. Talvez seja só uma árvore. Uma árvore alta no meio de árvores altas. Faz muito sentido afinal de contas. É só a noite te pregando peças. Somente seus olhos tentando entender as coisas. Mesmo assim, ele tranca a porta e a janela.
          Tibles permanece sentado no meio da sala até que o velho já tenha alcançado a soleira da cozinha, então, com um ronronar, segue-o até lá e pára ao lado de sua vasilha. O homem derrama leite aos poucos e o gato começa a beber, lentamente.
          Ele se senta ao balcão e decide que também precisa de um lanche antes de ir dormir. Passa então a montar vagarosamente um sanduíche e a preparar um café. Já está na segunda mordida e no meio do primeiro gole do café quando ouve um estalar vindo da sala. Ele pára no meio do gole, levando a caneca vagarosamente ao tampo do balcão. Tibles ergue as orelhas e espicha a calda. Atento. Ele se levanta de vagar e segue em direção à sala, com seu velho lampião na mão que treme. Ao chegar à sala, nada. “Devo estar ficando louco”... ao se virar para voltar ao seu lanche, Tibles começa a rosnar. De repente algo. Algo em sua visão periférica enquanto ele observar o gato. Uma sombra. Rápido. Somente uma fração de segundo e se foi. Mas é o suficiente. Tibles sai correndo e sobe as escadas. Ele decide que é melhor acompanhar o gato andar acima. Suas mãos tremem, seus ouvidos zunem. Ele sobe o mais rápido que pode. Um frio pavor começa a se apoderar de seu corpo, algo que ele nunca sentiu na vida, algo do qual nunca ouvira falar. Algo lá fora.
          Ele se tranca no quarto e se encolhe num canto feito uma criança assustada. A chuva tamborila forte nas janelas. O fogo na lareira morre. Tibles está encolhido debaixo da cama e ele pode ouvir o ranger dos próprios dentes. O relógio na sala soa lentamente o seu pêndulo. Tic... toc... tic... toc... mais lento que o seu batimento cardíaco. Ele treme. Frio. Um frio sobrenatural. Puxa as cobertas da cama, e se enrola o melhor que pode, mas isso não ajuda.
          Ele sente mais do que ouve... a porta da sala... abrindo lentamente... algo rastejando para dentro... a noite entrando em seu abrigo. O fogo em sua lareira, cada vez mais fraco. Silêncio. Somente o barulho de seu coração acelerado. O relógio não soa mais... em vez disso, algo pior... um som suave... lento. Cada vez mais próximo. Subindo as escadas. Pára. Tibles rosna sob a cama. Está ali. Do outro lado da porta. Aquilo. Vindo de fora. Ele não tem mais controle de seu corpo, o frio é tão profundo que ele treme convulsivamente.
          O trinco na porta. Há algo errado com ele. Ele gira suavemente. De repente um estalar. Ele geme silenciosamente. O ranger da porta ao se abrir acompanha o gelo em sua espinha.
          A porta se abre vagarosamente. Ele está paralisado. Não pode se mover, não pode fugir, não pode gritar, até mesmo isso é reprimido. Por Aquilo. Ali. Na porta. A Noite Que Entra. O Vindo de Fora. Ele O vê. E não compreende. Aquela escuridão que entra vagarosamente, apagando sua luz. Não. Aquilo não é possível. Um temor ancestral e frio toma conta de seu corpo. Paralisante. E então ele o vê como ele realmente é.
Inconcebível.
Inimaginável.
O derradeiro impulso de seu cérebro é finalmente processado.
Ele grita.
Mas o som só pode ter vindo do fundo de sua alma imortal.
Pois seu cérebro desistira de entender.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

No Projetor - Círculo de Fogo

       
        Sempre se buscou ou acreditou em vida inteligente fora deste pálido ponto azul, desde antigos povos que acreditavam serem filhos de deuses que desceram das estrelas à ciência moderna que enviou mensagens e expedições especialmente organizadas à fim de encontrar uma pista de que não estamos sozinhos no universo. Mas, em sua desesperada busca por vida fora de sua casa, o homem se esqueceu de olhar debaixo do seu tapete, e nunca imaginou que tal vida poderia vir de dentro de seu próprio planeta. O monstro não está lá fora, batendo em sua porta, mas sim embaixo de sua cama. Dentro do seu quarto.
Uma fenda interdimendional surge no meio do oceano Pacifico, dando passagem à seres colossais que passam a atacar e devastar tudo aquilo por onde passam. Após o primeiro ataque, em São Francisco, acontece outro, e mais outro... As armas às quais nós podemos recorrer não são suficientemente efetivas frente a tal ameaça e a única solução é um esforço coletivo das principais nações banhadas pelo Pacífico com o propósito de construir algo que faça frente aos monstros gigantes que surgem na costa. O resultado é o projeto Jaeger, que desenvolveu nada menos do que robôs gigantes para enfrentar os monstruosos kaiju!
Esta é a idéia básica que dá a forma inicial à Circulo de Fogo (Pacific Rim), fita que chega aos cinemas em Agosto deste ano, numa clara homenagem aos filmes de monstros gigantes e seus fãs. E quem melhor para conduzir este robô-gigante do que Guillermo del Toro, que cresceu cercado de filmes de monstros e dos famosos tokusatu? 
Para quem não sabe, tokusatsu (efeitos especiais, em japonês) nada mais é do que aquele estilo de seriado nipônico tão conhecido onde um monstro ataca a cidade, que é defendida por algum herói, como os clássicos Jaspion, Ultraman, Changeman ou mesmo Power Rangers. O México, assim como o Brasil foi bombardeado por esse tipo de programação nos anos 70-80, e o pequeno del Toro cresceu com isso, assim - de novo - como muitos de nós aqui! O resultado é um filme de fã para fã, tendo o diretor declarado abertamente seu amor ao estilo e suas influências, que vão desde Godzilla à Evangellion, fazendo o filme que ele gostaria de ter visto quando pequeno e tendo inclusive dedicado seu filme ao diretor do Godzilla original, Ishiro Honda.
É um pouco complicado falar sobre o filme sem soltar alguma informação que pode estragar o seu barato - o famigerado e temido spoiler! Basta dizer que todo este background já é estabelecido nos primeiros minutos do filme de uma forma simples e magistral que nos põe à parte dos acontecimentos sem ter que ficar repetindo os mesmos conceitos ao longo do filme, e que pegamos o bonde num ponto em que a humanidade esta ganhando; os jaegers são eficientes e seus pilotos heróis de guerra que protegem nossa costa há anos. A humanidade respira um pouco mais aliviada e os kaiju não parecem mais tão assustadores. Mas isso está prestes a mudar... 
Guillermo del Toro.
Del Toro é famoso por preferir efeitos práticos tradicionais ao moderno CGI, tendo trabalhado sempre que pode com bonecos e maquiagem, e sempre se preocupando com o departamento de arte de seus filmes. Tal característica não se mostra diferente em Círculo de Fogo, claro que guardadas as devidas proporções: um filme desse porte seria muito mais complexo e caro se filmado com técnicas convencionais, mas o cuidado com a arte conceitual ainda se faz muito presente, criando detalhes desde anatomia e biologia das criaturas à funcionalidade dos jaegers. Pequenos detalhes podem ser notados aos olhos mais atentos, como a movimentação e adaptação dos kaiju aos ambientes em que estão inseridos ou as inspirações e características dos robôs construídos com base maquinário militar existente. O departamento de arte e todos os profissionais envolvidos merecem uma atenção à parte no filme. Você acredita naquilo que está vendo. Todos os personagens gigantes, sejam robôs ou os monstros, são perfeitamente críveis, com texturas e movimentos próprios, parecendo vivos na tela. As cenas de luta muitas vezes parecem filmagens de helicópteros que vemos na TV, conferindo uma realidade extra ao filme. Isso somado à pequenos detalhes do roteiro como o posicionamento socio-político frente a tal ameaça ou o mercado negro de partes de kaiju e todos os conceitos relativos à tecnologia jaeger que conecta a mente dos dois pilotos nos dá uma imersão muito maior do que o 3D poderia proporcionar. São vários conceitos que, mesmo não sendo muito aprofundados, pois a idéia era focar nesta briga de bem contra o mal, que servem como porta de entrada para um mundo bem construído e com grande potencial de ser aproveitado na seqüência. Além de que o material extra disponível na internet é muito vasto.

Jaegers no Pacífico.

A trilha sonora se faz presente através de temas principais que funcionam para pontuar grandes feitos realizados em tela, e possui uma melodia simples de decorar que te faz sair do cinema cantarolando as notas de Ramin Djawadi (Homem de Ferro, Guerra dos Tronos), contando com um ar de rock n’ roll que casa perfeitamente com o que está sendo mostrado, passando algo como “tenho um robô-gigante, vai encarar?”.


Esses detalhes, frutos da paixão de del Toro pelo que está realizando, tornam Círculo de Fogo um filme divertidíssimo e bem construído, ainda mais se você assistia a algum tokusatsu quando pequeno! Tenho visto muita gente com receio de assistir à fita por pensar que pode ser um novo Transformers, mas a semelhança termina no fato de ambos terem robôs-gigantes em tela. Aqui, eles foram construídos e comandados por nós, são enormes e pesados, e até mesmo um pouco lentos, como coisas muito grandes são no geral (Shadow of the Colossus, alguém?), podendo-se perceber exatamente o que está acontecendo em tela, e não aquela confusão de barulhos e câmeras girando...
  As lutas entre os gigantes são espetaculares, grandiosas, além de bem dirigidas e conduzidas. Você sente o peso de cada impacto, de cada queda...  Mas muita gente tem ido esperando encontrar somente “robôs gigantes dando porrada em monstros gigantes”, sendo que este era um comentário comum pela internet antes do lançamento do filme. Claro que somente porrada não sustenta um filme, (mesmo os filmes de brucutus dos anos 80 contam com histórias, ainda que sejam somente desculpa para a porrada nesse caso, né?) e as relações interpessoais são abordadas à fim de aproximar os personagens do expectador, mas nada que se torne maçante ou melodramático demais. A história é interessante e o mundo é bem sustentado pelos conceitos adotados, e eu me peguei temendo pelos personagens logo nos primeiros minutos.


        Muita gente tem resmungado por aí e torcido o nariz por dizer que o filme se trata de um plágio de Evangellion. Eu nunca assisti este anime, portanto não posso dizer nada, mas acho que as pessoas resmungam demais e andam muito mal-humoradas em relação a cinema. – talvez eu ainda faça um post sobre isso aqui –, mas se você gosta de Evangellion, e alguém faz um filme com referências ao mangá (sendo que esse alguém, o diretor, admite isso com um sorriso apaixonado no rosto), fique feliz, pois se este filme não abrir caminho para uma adaptação do mangá, talvez seja o mais próximo que você chegue de ver algo assim na telona. Talvez seja a mesma coisa que comparar Battle Royale a Jogos Vorazes ou Avatar a Pocahontas, mas, como eu sempre digo, O Rei Leão nada mais é do que Hamlet com animais, e ninguém reclama disso! O que importa não é a história que você conta, pois com certeza alguém já fez algo parecido, mas sim como você conta. Criar algo puramente do nada hoje em dia é praticamente impossível, e Joseph Campbell está aí pra provar isso! 


Circulo de Fogo é uma ótima pedida para um cinema pipoca de fim-de-semana, sendo, de longe, o maior blockbuster de Guillermo del Toro até o momento. Como comentário pessoal gostaria de acrescentar que desde O Hobbit – Uma jornada inesperada não saio tão empolgado de um filme; fazia tempo que eu não me divertia tanto. Já fui assistir duas vezes, a trilha sonora virou toque do meu celular e estou atualmente vasculhando o E-bay atrás de action-figures do filme, e que a cena do primeiro ataque de kaiju e toda a sequência de introdução são sensacionais!
        

        Guarde os eventuais preconceitos na gaveta e vá assistir.
        Afinal, quando foi que você viu algo assim no cinema antes?

terça-feira, 9 de julho de 2013

No fundo da gaveta - "Um trem para o Oeste"

       A locomotiva segue sacolejando suavemente pelos trilhos. É noite, a maioria das luzes nos corredores e nas cabines está apagada, à exceção de uma ou outra lâmpada à gás que balança suavemente, feito um pêndulo no meio do longo corredor, alongando as sombras e aprofundando a escuridão. As portas das cabines estão todas fechadas, e não há barulho algum, a não ser o do próprio trem, que segue seu caminho. Não há paradas, não há estações onde pessoas embarcam. Ele não se lembra exatamente como chegou ali. Encolhido em uma larga poltrona de veludo vermelho que poderia abrigar três pessoas, ele busca alguma referência pela janela. Mas isso de nada lhe vale. Está muito escuro lá fora, chove, e o vapor de seu corpo nublou a janela. Constantemente ele passa a manga de seu casaco pelo vidro, sem desistir de buscar algo na imensidão que se move lá fora. Ele sabe que se move, pois o trem sacoleja, e a lâmpada em sua cabine acompanha o movimento. Não há ninguém na poltrona da frente; ele está só. Seus pés estão apoiados em sua poltrona, junto ao peito, e ele segura os joelhos com um abraço apertado, que só desfaz para limpar a janela novamente. 
         Ele se sente estranho. A simples idéia de tocar o chão com os pés o assusta. Ele olha para o chão pelo vidro, depois de tê-lo limpado mais uma vez, vê os pedriscos se movendo próximos à locomotiva. Rápido. Então está mesmo indo para algum lugar, mas para onde? Seria um sonho? Ele não se lembra de como chegou ali, não se lembra de ter comprado nenhuma passagem, nem de ter que viajar... Qual é a última coisa que se lembra? Seria amnésia? Ele não se lembra de seu nome. Se sente perdido. A chuva aperta lá fora. Ele ouve o tamborilar monótono e sonolento das gotas nas janelas. Respira fundo o ar frio e toma uma decisão. Levanta-se. Ao olhar o bagageiro acima de sua poltrona encontra uma pasta. Ele a pega e senta-se. Não há mais ninguém no vagão, então a pasta só pode pertencer a ele, certo? Ele olha ao redor, como que para se certificar de que não há mesmo mais ninguém. Volta-se para a pasta de couro. Está fechada. O fecho está emperrado ou algo assim. Ele não consegue abrir. Frustrado, larga a pasta em cima da poltrona e sai da cabine. A porta de correr volta automaticamente, fechando. O corredor não é muito largo; o suficiente para duas pessoas passarem com um pouco de aperto. Ele bate na cabine em frente à sua. Nada. Sem resposta. Tenta abri-la. Trancada. Ele olha para os dois lados. Ele está no meio de algum vagão. Acima de sua cabine há uma placa oval de cobre. Há um número ali. Ele força a vista. Memoriza o número. 
        Segue em frente pelo corredor, testando todas as cabines, todas vazias e trancadas. Algumas têm suas luzes interiores acesas, mas ninguém responde. Ele continua em frente. As luzes do vagão não parecem estar funcionando muito bem. Algumas estão apagadas, outras piscam esporadicamente. Há como que uma neblina pairando no interior do vagão. Ele não consegue enxergar o fim deste, está escuro e frio. Os únicos sons que chegam aos seus ouvidos são o da chuva tamborilando no trem e o do sacolejar deste sobre os trilhos. Ele segue até chegar ao fim do vagão, sem ter encontrado ninguém no caminho. Há uma porta com um pequeno vidro quadrado. O vidro está embaçado. Como as janelas de sua cabine. Ele segura a manga do casaco e com o punho limpa o vidro, encostando a mão em concha para enxergar melhor através dele. Existe outro vagão atrelado ao seu. Ele testa a porta, esperando estar trancada como as outras, mas está aberta. A porta se abre para dentro, deixando a chuva entrar e fustigando seu rosto. Ele se apóia no portal e abre a porta do vagão adjacente. Esta se abre, igualmente para dentro. Com um salto, ele aterrissa no vagão da frente, que se encontra tão nevoento quanto o que acabou de deixar. Ele caminha com cautela. 
        Isso está muito estranho. Ninguém. Seria ele o único passageiro daquele trem? Para onde estava indo afinal? Se ao menos ele se lembrasse! A lâmpada pisca sobre sua cabeça, gerando um reflexo na placa que indica o número da cabine, chamando sua atenção. Ele olha para a placa. 1408. Impossível! Aquele era o número da sua cabine. Ele olha para trás, confuso. Tinha mudado de vagão, isso era certo. A luz dentro da cabine está acesa. Ele vê o tom sépia através do vidro borrado. Passam-se alguns segundos em que ele simplesmente encara a porta, indeciso. Então escancara-a de uma vez. Ela corre para o lado, bate na extremidade e volta. Ele a segura com a mão. Vazia. A cabine está vazia. Ele contempla seu rosto no reflexo do vidro da janela. Seus cabelos desgrenhados e o rosto barbado. Sabe que aquele é seu rosto, mas não lembrava que ele fosse assim. 
        Adentra a cabine. A pasta continua jogada em cima do assento. Ele a pega novamente. Analisa o fecho. Força-o um pouco e a pasta se abre. Mais hesitação. Finalmente decide por vasculhar o conteúdo. Dentro há algumas folhas de papel velhas e corroídas pelo tempo nas bordas. Há algo escrito nelas. Símbolos organizados em linhas paralelas. Padrões de cinco linhas. Ele reconhece aqueles padrões, mas não sabe dizer o que são. Suspira. O que está havendo com sua mente? Apóia as folhas no colo e fica olhando para a primeira delas. Seus dedos tamborilam sobre a perna impacientes. 
        Não...
        Não é impaciência. 
        É um movimento coordenado... ele reconhece os símbolos. Aquilo é uma partitura! Uma melodia.                 Ele se lembra. 
        Cantarola baixo. Sim. Lembra-se. 
        Alguém cantando aquela música pra ele. 
      A lembrança vem acompanhada de um sentimento bom. Conforto. Ele sorri. Olha para a pasta novamente. Será que há algo mais ali dentro? Ele vasculha. Vira de cabeça para baixo. Algo cai em sua mão. Um colar. Um fino pingente de vidro em uma corrente de prata. Translúcido e brilhante. É como se o pingente tivesse sua própria luz, se é que isso é possível. Talvez ele só esteja refletindo a luz pálida e amarelada... Há algo sobre aquele pingente. Algo que ele não se lembra, mas também lhe trás conforto. Ele abre o fecho e pendura o colar no pescoço. Recosta-se na poltrona e fecha os olhos. 
        Neste momento, o trem pára com um solavanco. 
        Ele se curva na poltrona e olha para fora. Está escuro demais para se enxergar algo. Ele se levanta e sai pela porta, assim que a cruza, se lembra da pasta, volta, fecha-a e sai novamente; seja lá o que fosse que ele achara na pasta, pertencia a ele. 
        Ao desembarcar na plataforma coberta pela fumaça da locomotiva e pela nevoa da noite ele não sabe exatamente o que fazer; não há placas ou sinais de identificação nos pilares. É tudo muito limpo, mas há ali um ar de abandono, como se ninguém passasse por ali há muito, muito tempo. Ele se vira para o outro lado e caminha até a borda. Há outro trilho ali por onde a locomotiva provavelmente faria o caminho inverso àquele por onde ele viera. O trem à suas costas apita e começa a se mover. Ele se vira e observa-o partir. O dia começa a clarear em uma manhã cinza e nevoenta. O céu passa do negro da noite a um cinza-chumbo. Ele percebe que não chove mais, mas vários flocos de neve flutuam calmamente até tocarem o chão e sumirem em um mar branco. Ele caminha ao longo da plataforma e encontra uma escada para descer, entre os dois trilhos. Sem muita certeza, segue caminhando e cruza a linha por onde viera seu trem. Há uma floresta ao longe, ele segue em sua direção. Talvez haja uma vila ou povoado onde ele possa pedir informações. 
        Ele divisa uma figura entre as árvores. Isso o anima. Finalmente uma alma viva naquele lugar, naquele sonho estranho. Ele aperta o passo em direção à figura ao longe. Aos poucos consegue discernir melhor o contorno e logo, as feições. Uma mulher. Vestida de branco, com longos cabelos negros que cacheiam suavemente às suas costas. Seu vestido longo arrasta as pontas no chão, mesclando a mulher ao ambiente gelado enquanto ela se move calmamente pela linha do horizonte. 
        Ele estaca por um momento. 
      Pensou ter visto asas às suas costas, mas eram somente galhos de algumas árvores secas atrás dela que causaram uma estranha ilusão de ótica... 
        Ou talvez não fosse? 
        Mesmo assim ele decide seguir em frente. 
      Conforme se aproxima, percebe que a mulher está descalça sobre a neve. Caminhando calmamente em uma linha reta, seguindo para a esquerda dele, ao visto, sem tê-lo notado. Ele aperta o passo e, quando percebe, está correndo em direção à misteriosa mulher de branco. Quando está quase alcançando, ela finalmente o nota. 
        E olha para ele. 
      Seus olhos são de um azul muito suave, com um olhar ao mesmo tempo tenro e gélido. Seus lábios rosados não lhe traem nenhum sentimento. Sua pele é muito clara, contrastando com o cabelo negro, enfeitado por pequenas flores e flocos de neve, como estrelas na noite escura. 
        Ele estaca, sem saber o que dizer agora que finalmente alcançou-a. 
        Ela olha para ele por mais alguns instantes e estende-lhe a mão. 
       Há longas fitas brancas amarradas em seus pulsos, descendo entrelaçadas até as mãos, as pontas caindo soltas e esvoaçando ao vento. Ele olha para a mão estendida e em seguida para seus olhos. 
        Os longos cabelos dançam ao vento, jogando vários fios para o rosto da garota, velando seus grandes olhos azuis.
        Ela sorri. 
        E ele compreende. Tudo.
        O porquê de estarem ali. 
        O caminho a seguir.
        Não há mais incerteza em seu olhar ou em seus movimentos, ele pega a mão que ela lhe oferecera e juntos eles seguem pela floresta coberta de neve em meio ao dia que amanhece, e logo ele ouve, ao longe, o rugido do mar quebrando na costa.




sábado, 25 de maio de 2013

No Projetor - ET - O Extraterrestre


            Um garoto solitário que sente a falta do pai e não encontra muitos laços afetivos entre os irmãos ou mesmo com a mãe, que nunca está em casa ou, quando está, se mostra sem tempo e apressada demais entre emprego, contas e atividades domésticas para prestar atenção ao filho. Um pequeno estrangeiro que se perde da família e se vê sozinho em um mundo totalmente novo e estranho à ele, sem a mínima noção ou esperança de como voltar para casa.
              Estes dois, com sentimentos tão semelhantes de perda e abandono encontrarão uma amizade pura e verdadeira um no outro no clássico imortal de Steven Spielberg, ET - O Extraterrestre.
             Filme de 1982 dirigido por Steven Spielberg, com roteiro de Melissa Mathison e produzido por Kathleen Kennedy e pelo próprio Spielberg - fundadores da Amblin - que conta a história do pequeno alienígena que se perde de sua família em uma visita à terra.
           
Steven Spielberg
            Somos apresentados a Elliot, o filho do meio de uma família comum de algum lugar nos estados unidos. Durante uma sessão de jogo entre os amigos de seu irmão, Elliot sai para ir buscar a pizza do lado de fora e quando está voltando escuta ruídos estranhos vindos de sua garagem. O garoto decide investigar, pensando que fosse o cachorro, e tem um encontro inesperado com uma criatura que nunca viu em sua vida. Elliot volta correndo assustado para casa, convencendo sua família de que há algo lá fora, porém quando voltam, não encontram nada e atribuem o ocorrido à imaginação do garoto.
               Intrigado e certo de que não imaginara nada, Elliot decide procurar aquilo que viu na noite anterior e sai pelos arredores jogando doces e chamando a criatura. Sem encontrar nada, volta pra casa e monta guarda com uma lanterna do lado de fora, certo de que o visitante irá voltar.
               Assombrado, Elliot vê a criatura vir em sua direção no meio da noite e devolver alguns dos doces que ele jogara pelo caminho. Ao mesmo tempo em que está assustado, Elliot está curioso o suficiente para conseguir atrair o estranho pra dentro do seu quarto, talvez por pensar se tratar de algum animal perdido, talvez alguém que possa ser seu amigo.
           Cria-se aí, um laço afetivo e emocional que ligará os dois à partir de então. Elliot, na generosidade que somente as crianças podem demonstrar, abriga um desconhecido em seu quarto, mostrando-lhe suas coisas, seus brinquedos e gostos como qualquer garoto faria. Surgia ali um amor sincero entre os dois, tão semelhantes e tão diferentes entre si.
               Elliot decide mostrar seu novo hóspede ao irmão, Michael, sendo que sua irmã mais nova, Gertie, acaba descobrindo também, e os dois juram não contar nada a ninguém, nem mesmo à sua mãe. O interessante é que a mãe está tão fora do mundo das crianças que nem mesmo nota o ser estranho em sua casa na manhã seguinte, cruzando com ele várias vezes sem nem mesmo notá-lo.
               As crianças descobrem que o visitante vem de muito longe, em algum lugar no espaço, que se perdeu de sua família e precisa voltar para casa. Elliot decide prontamente ajudar o ET a reencontrar os seus. Em paralelo, agentes do governo procuram o alienígena que se perdeu e, tendo consciência disso, os garotos mantém em segredo absoluto a presença de ET.
               O filme conta com algumas sutilezas interessantes; é filmado praticamente somente na altura dos olhos de Elliot, sendo que a única figura adulta que vemos inicialmente é a da mãe. Não vemos o rosto de outros adultos com os quais Elliot não tenha um carinho especial ou não sejam tão próximos a ele, como seu professor de ciências, que nem mostra o rosto no longa, ou os agentes do governo que são somente sombras na noite, quase como monstros noturnos que chegam a ser assustadores. Isso cria um paralelo interessante, pois os adultos alheios à vida de Elliot são mais alienígenas do que o próprio ET; são eles que representam o verdadeiro perigo. A cena em que a casa de Elliot é invadida por estes agentes é muito semelhante com uma cena de abdução por alienígenas em outros filmes.
               Outro ponto interessante é que a atmosfera fora da casa também é assustadora durante a noite, cheia de neblina, com algumas luzes distantes, como se fosse realmente um cenário de filme de terror.

Música por John Williams.

               Além disso, o filme possui cenas imortalizadas no cinema, como o vôo na bicicleta ou Elliot tendo o machucado no dedo sendo curado magicamente pelo ET, além de momentos divertidíssimos entre as crianças e várias referências a Star Wars e à cultura pop, tudo isso coroado pela trilha sonora sublime de John Williams, gênio das composições para Hollywood (que com certeza ganhará um post em breve neste blog!). É praticamente impossível ver uma cena deste filme ou mesmo ouvir a música sem se lembrar na hora dele.
ET ganhou vários Oscar, mas acima de tudo ganhou nossos corações, nos ensinou que devemos “Ser bons” e que as pessoas que moram em nossos corações vão sempre estar ali. A vida de Elliot nunca mais será a mesma depois daquela experiência, ele com certeza encarará a separação do pai de outra maneira, conquistou amigos em sua jornada e cresceu como pessoa, e nesse momento nós somos como Elliot, pois ao fim do filme, sentimos que não somos mais os mesmos.
ET – O Extra-terrestre é um filme mágico e atemporal que passa mensagens muito bonitas de amor e amizade entre seres completamente diferentes. Steven Spielberg é um dos meus diretores favoritos e adora passar boas mensagens para seu público, sendo até criticado às vezes por seus finais felizes. No fim, mais uma vez, nós somos como Elliot, sabemos que ET precisa ir embora, mas não queremos que ele vá, desejamos que ele fique com o garoto.
Esta é a grande mensagem do filme, se você ama alguém, deixe-a ir se ela precisar, pois aqueles que nos amam nunca nos deixam e essa compreensão é a maior demonstração de amor que podemos oferecer, pois eles sempre vão “Estar aqui mesmo”.
              


               Este é aquele tipo de filme que toca você de maneiras diferentes ao longo do tempo, eu o assisti novamente semana passada para escrever este post em sua homenagem neste blog, pois ele fez parte de minha infância e tenho muito carinho por ele, e fiquei muito feliz dele permanecer maravilhoso a ponto de me emocionar profundamente no final e ter novamente aquela sensação gostosa no peito e aquele sorriso no rosto.
               Obrigado ET, onde quer que você esteja!